BUMBA MEU BOI DO MARANHÃO: UMA BRINCADEIRA MUITO SÉRIA QUE RESISTE AOS SÉCULOS

BUMBA MEU BOI DO MARANHÃO: UMA BRINCADEIRA MUITO SÉRIA QUE RESISTE AOS SÉCULOS

Bois do Bumba meu boi Oriente, sotaque da Baixada. São Luís, MA. 13/06/21. Foto de Wilmara Figueiredo

Boi de mamão, boi bumbá, pavulagem, boi de reis, boi de janeiro, boi surubim, boi pintadinho são alguns dos nomes pelo qual a “brincadeira do boi” é conhecida Brasil afora, podendo ocorrer de janeiro a dezembro tamanha é a sua força e representatividade para o nosso povo (CASCUDO, 1967; QUEIROZ, 1967; CAVALCANTI, 2006). No Maranhão, o bumba meu boi é uma manifestação cultural de grande importância para a população, sendo reconhecido pela sua diversidade e forte significado místico-religioso, ao qual se atrela um ciclo festivo extenso e bem consolidado que encontra como território a capital e interior do estado.

 

Devotos acendendo vela para São João após o ritual de batismo do Bumba meu boi de Maracanã, sotaque de matraca. São Luís, MA. 23/06/20. Foto de Maria José de Lima Soares. Acervo: Associação Recreativa e Beneficente Folclórica e Cultural de Maracanã.

Dessa forma, essa festa tradicional da cultura popular maranhense extrapola o significado estrito de brincadeira e alcança patamares de celebração, envolvendo performance, ritual, dramatização, música, dança, poesia e uma riquíssima e específica cultura material. Tais aspectos lhe justificaram os merecidos títulos de Patrimônio Imaterial Brasileiro, em 2011, e de Patrimônio Cultural da Humanidade, em 2019, enquanto um Complexo Cultural. O que dá tônica a tudo isso é o seu sentido religioso, observado na devoção aos santos católicos do mês de junho, notadamente São João, e envolve práticas do catolicismo popular que se estendem também aos terreiros e rituais afro-religiosos. Essa dimensão espiritual e ritualística relaciona-se diretamente com o universo místico e simbólico da manifestação que celebra o “boi” para cumprir um trato assumido com as santidades. Nesse sentido, a “brincadeira” vira compromisso, os “brincantes” viram devotos e o “boi artefato” vira um elemento sagrado.

 

Ritual de batismo do Bumba meu boi Unidos de Santa Fé, sotaque da Baixada. São Luís, MA. 20/06/21. Fotos de Zeqroz Neto. Acervo: Bumba meu boi Unidos de Santa Fé.

Essa concepção de “brincadeira muito séria”¹ atravessa os séculos, já que as interpretações positivas enquanto bem patrimonial são relativamente recentes em termos históricos. A fama do bumba meu boi é tão grande e naturalizada que pouco se pensa sobre o mar de preconceitos e restrições por ele enfrentados em uma sociedade que o via como a expressão da pobreza, da subalternidade, da barbárie, de “pretos e pobres”.

 

 

 

Ritual de batismo do Bumba meu boi Boa Vontade, sotaque de zabumba. São Luís, MA. Foto de Wilmara Figueiredo.

Moldado à lutas e desafios, nestes dois anos de pandemia, o bumba meu boi tem mostrado, com graça e beleza, a sua grandiosidade e força. Sem as festanças e aglomerações dos moldes tradicionais, os detentores, bem atentos às exigências sanitárias do “novo normal”, reelaboraram suas práticas rituais para o devido cumprimento de seus deveres religiosos ao mesmo tempo que buscam garantir seu prestígio junto ao público mais amplo e a sua sobrevivência. Especialmente em um contexto de grandes perdas pessoais e de retração econômica que atingiu de forma voraz os brincantes e trabalhadores do segmento cultural como um todo, está sendo tempo de associar à tradição doses generosas de modernidade, se reinventar em novas práticas para manter viva a fé em Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal. O Boi resiste. Então, bumba, meu boi! Amém!

¹Expressão comumente usada pelos detentores para explicar a dimensão sagrada do compromisso com as santidades com quem se negociou a criação da manifestação.

Por Wilmara Figueiredo
Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Antropologia
da Universidade Federal do Pará. Assessora Especial
da Fundação Municipal de Patrimônio Histórico da Prefeitura de São Luís.

REFERÊNCIAS
CASCUDO, Luís Câmara. “Folclore do Brasil: pesquisas e notas”. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1967
CAVALCANTI, Maria Laura. “Temas e variantes do mito: sobre a morte e a ressurreição do boi”. In: Mana, 12(1), 69-104, 2006.
QUEIROZ, Maria Isaura. “O bumba meu boi: manifestação de teatro popular no Brasil”. In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, 2(1), 87-97. 1967.