O futebol, há muito tempo é conhecido como paixão nacional. Em época de Copa do Mundo, as atenções se voltam para o Brasil e por tudo que esse esporte representa em nosso país. O Maracanã, que leva o nome do rio e da região, que tem como nome formal, Estádio Jornalista Mário Filho, faz parte da memória de muitas gerações. É grito de gol, é torcida cantando, bandeirões flamulando. É emoção pura, comoção, riso e choro.
Quando pensamos em patrimônio cultural, é comum que nossa imaginação vá diretamente para igrejas barrocas, casarões coloniais ou festas tradicionais. Contudo, o patrimônio é também aquilo que carrega a memória afetiva de um povo, os lugares onde histórias coletivas foram escritas e onde identidades se constroem ao longo do tempo. O “Maraca” é, sem dúvida, um desses lugares. Inaugurado em 16 de junho de 1950 para sediar a Copa do Mundo de Futebol daquele ano, o estádio foi construído pela Prefeitura do então Distrito Federal do Rio de Janeiro e se tornou, na época de sua abertura, o maior do mundo, com capacidade oficial para 155 mil espectadores.
O nome oficial do estádio homenageia o jornalista Mário Rodrigues Filho, pernambucano de nascimento e carioca de coração, que foi uma das figuras centrais na luta pela construção do Maracanã. Dono do Jornal dos Sports, Mário Filho publicou uma série de artigos defendendo a construção de um grande estádio municipal. O movimento ganhou tamanho suporte popular que o jornalista ficou conhecido como o “namorado do estádio”. Mas, a contribuição de Mário Filho à cultura carioca não parou no futebol: ele também foi o idealizador do primeiro desfile de escolas de samba do Rio de Janeiro, ajudando a construir duas das maiores paixões da identidade fluminense. Em 1966, já com o Brasil bicampeão mundial, o estádio que antes se chamava Estádio Municipal Mendes de Moraes passou a carregar seu nome como reconhecimento permanente de seu legado.
A trajetória de reconhecimento do Maracanã como patrimônio cultural é ela mesma uma história de disputas e de afirmação de valores coletivos. O processo de tombamento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) foi aberto em 1983 e concluído apenas em dezembro de 2000, com a inscrição do estádio no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. O tombamento reconheceu no Maracanã não apenas um valor arquitetônico (a forma em elipse, com sua icônica marquise em balanço de concreto, concebida pelos engenheiros-arquitetos Rafael Galvão, Pedro Paulo Bastos, Antônio Dias Carneiro, Orlando Azevedo e Miguel Feldman) assim como também seu caráter monumental e popular, a dimensão simbólica de um espaço onde milhões de pessoas viveram momentos inesquecíveis. Além disso, foi tombado municipalmente, pelo Decreto 21.677/02. O Maracanã é inscrito, assim, tanto no registro da memória arquitetônica quanto na memória viva das comunidades que o habitam afetivamente.
Ao longo das décadas, o estádio foi palco de momentos que transcendem o esporte: o milésimo gol de Pelé, duas finais de Copa do Mundo, shows de artistas como Frank Sinatra, Paul McCartney, Madonna e os Rolling Stones, a abertura e o encerramento dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Essa multiplicidade de usos e memórias é, em si, uma característica do patrimônio imaterial que o Maracanã carrega: ele não é apenas uma estrutura física, mas um lugar de encontro, de emoção coletiva, de construção de identidade. O estádio, que passa por debates constantes sobre sua gestão, preservação e até mesmo sobre seu nome, permanece como um ponto de convergência entre o passado e o presente da cidade do Rio de Janeiro. Um patrimônio vivo que pertence, acima de tudo, à memória do povo fluminense.
Reconhecer o Maracanã como patrimônio cultural vai além de preservar sua estrutura de concreto e suas arquibancadas. Significa reconhecer que o patrimônio é feito de pessoas, de histórias, de pertencimento. A Semana Fluminense do Patrimônio nos convida exatamente a esse exercício: olhar para os espaços que constituem a identidade do estado do Rio de Janeiro e perceber que preservar é também um ato político, social e afetivo. O Maracanã, com toda a sua grandiosidade, suas contradições e sua capacidade de reunir multidões, é um espelho da própria alma fluminense: plural, apaixonada, resistente e sempre pronta para a próxima emoção.
Foto do topo: Domínio público / Acervo Arquivo Naciona
Foto 1: Domínio público / Acervo Arquivo Naciona
Foto 2: By Diego Baravelli – Own work, CC BY-SA 4.0, Link
Referências
GIRÃO, Claudia. Maracanã: destruir ou preservar. Projetos, São Paulo, ano 12, n. 133.08, Vitruvius, fev. 2012. Disponível em: <https://vitruvius.com.br/revistas/read/projetos/12.133/4225>. Acesso em: 11 jun. 2026.
IPATRIMÔNIO. Rio de Janeiro — Estádio Mário Filho. Disponível em: <https://www.ipatrimonio.org/rio-de-janeiro-estadio-mario-filho/>. Acesso em: 11 jun. 2026.
MACHADO, Sandra. Mario Filho: futebol, carnaval e construção da alma carioca. MultiRio, Rio de Janeiro, 7 jun. 2013. Disponível em: <https://multi.rio/index.php/noticias/493-mario-filho-o-jornalista-que-ajudou-a-construir-a-alma-carioca>. Acesso em: 11 jun. 2026.
WIKIPEDIA. Estádio Jornalista Mário Filho. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Est%C3%A1dio_Jornalista_M%C3%A1rio_Filho>. Acesso em: 11 jun. 2026.