Último dia do Encontro do Patrimônio Fluminense destaca a relação entre clima, memória e preservação

Último dia do Encontro do Patrimônio Fluminense destaca a relação entre clima, memória e preservação

O encerramento do Encontro do Patrimônio Fluminense 2025, realizada de 25 a 27 de novembro, em Angra dos Reis, foi marcado por duas mesas dedicadas ao debate sobre o enfrentamento das mudanças climáticas na preservação do patrimônio cultural e natural, além das relações entre memória, território e clima como caminhos para a preservação sustentável. As discussões fecharam três dias de atividades voltadas à reflexão sobre os impactos das mudanças climáticas no patrimônio fluminense.

A programação do último dia começou com a mesa “Enfrentamento das mudanças climáticas sobre a preservação do patrimônio cultural e natural”, que reuniu representantes de órgãos ambientais, universidades e redes internacionais. Participaram Ricardo Marcelo, instrutor de mudanças climáticas e sustentabilidade da Universidade do Ambiente do Inea; Regina Abreu, professora da Unirio e coordenadora do Observatório de Patrimônio Cultural do Sudeste; Aldia de Bulhões Lara, coordenadora da Frente de Cultura do Fórum de Comunidades Tradicionais da Bocaina e Mauro García Santa Cruz, copresidente para América Latina e Caribe da Climate Heritage Network (CHN). A mediação foi de João Andrade, educador museal do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

Em sua fala, Ricardo Marcelo, do Inea, destacou que os órgãos ambientais historicamente atuam mais no controle e na punição do que na prevenção, o que se mostra insuficiente diante da crise climática. Segundo ele, preservar o patrimônio cultural e natural exige conhecer os territórios e as populações que neles vivem. “A gente só preserva aquilo que conhece. Muitas vezes licenciamos sem compreender os modos de vida locais e os riscos que já estão colocados”, afirmou, defendendo a incorporação da dimensão cultural nos processos de licenciamento ambiental.

Regina Abreu, da Unirio, chamou atenção para as desigualdades sociais e territoriais associadas às mudanças climáticas, ressaltando que seus impactos não atingem a todos da mesma forma. Para a pesquisadora, é fundamental articular universidade, políticas públicas e comunidades. “A universidade não pode ficar encastelada. Precisamos de pesquisas em rede, de continuidade e de diálogo com os sujeitos sociais”, afirmou, destacando o papel dos saberes tradicionais e da justiça climática nos processos de patrimonialização.

A perspectiva das comunidades tradicionais foi apresentada por Aldia de Bulhões Lara, que ressaltou que práticas culturais, memórias e relações com o território constituem um patrimônio vivo. Ela alertou para os impactos da especulação imobiliária de grandes empreendimentos sobre comunidades caiçaras, enfatizando que preservar o patrimônio passa necessariamente pela garantia dos direitos territoriais e pelo reconhecimento dessas populações como protagonistas.

Encerrando a mesa da manhã, Mauro García Santa Cruz, do CHN, apresentou iniciativas internacionais que articulam cultura e ação ambiental, destacando o patrimônio cultural como dimensão estratégica para políticas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Segundo ele, integrar cultura, sustentabilidade e justiça social é essencial para enfrentar a crise ambiental de forma inclusiva.

À tarde, a mesa “Memória, território e clima: caminhos para a preservação sustentável” reuniu Vânia Guerra, pescadora, agricultora e quilombola da Ilha da Marambaia; Genilson Djedjoko, liderança indígena Guarani Mbya da Aldeia Rio Bonito, em Ubatuba; e Queila Santos, liderança comunitária caiçara da Ilha Grande, com mediação de Anderson Nascimento, do ICMBio de Paraty. As falas destacaram a memória, a ancestralidade e os saberes tradicionais como elementos centrais para respostas sustentáveis à crise climática.

O encerramento do evento contou ainda com a divulgação do resultado da Mostra de Fotografia e Poesia Olhares sobre o Patrimônio Fluminense – 2025 e uma apresentação cultural do Trio Caxadaço, de Angra dos Reis. As mesas estão disponíveis no canal da Semana Fluminense do Patrimônio no YouTube.